Uma singela reflexão sobre a arborização urbana e os seus efeitos na sociedade
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“A crise climática é um desafio coletivo que exige responsabilidade compartilhada.”
António Guterres
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Num desses dias, numa daquelas tardes de calor em que até os pássaros estavam de bico aberto, sentei-me no banco de uma das praças da cidade. Seu Zé desfiava calmamente o seu cigarro de palha, em breve intervalos parava para se abanar com o seu chapéu. E entre o cigarro e o chapéu procurava um assunto como todo bom interiorano.
— Antigamente, meu filho, a cidade era mais fresca. Hoje o asfalto frita até pensamento! Olha como ele está derretendo! – enquanto apontava para o piche borbulhando na rua.
E Seu Zé não deixa de ter razão! O asfalto escuro, com seu baixo albedo, essa palavrinha bonita que mede a capacidade de refletir a luz solar, absorve demais o calor. Resultado: Cada vez mais se presenciam as ilhas de calor que fazem o termômetro subir e o humor descer! Onde há concreto demais e árvore de menos, o sol reina absoluto, e o conforto térmico vira lenda urbana.
Mas quando a arborização é pensada com critério, a história muda de tom. Árvores bem distribuídas reduzem significativamente a temperatura ambiente, ampliam o sombreamento, aumentam a umidade do ar por meio da evapotranspiração e oferecem abrigo para pássaros que ainda insistem em cantar apesar do trânsito. Não é poesia apenas, é ciência aplicada ao cotidiano!
A boa arborização urbana exige planejamento técnico. Não se trata de plantar qualquer muda em qualquer canto, como quem joga esperança ao vento. É preciso respeitar o espaço das raízes, a fiação aérea, as calçadas, os recuos. E quando chega o momento da poda, que ela seja conduzida conforme os parâmetros técnicos estabelecidos pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), evitando mutilações que enfraquecem a árvore e empobrecem a paisagem. Poda não é castigo! É manejo responsável!
Enquanto conversávamos, Dona Isaura, sempre prática, completou:
— Se a gente cuida das árvores, elas cuidam da gente.
Eis a síntese perfeita dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável ODS, da Organização das Nações Unidas (ONU), especialmente o ODS 11 (Cidades e Comunidades Sustentáveis) e o ODS 13 (Ação Contra a Mudança Global do Clima). Arborizar é agir localmente diante de um fenômeno global: o aquecimento do planeta, que já não é previsão futurista, mas realidade sentida na pele.
Cada árvore plantada e mantida com responsabilidade é um pequeno gesto contra o avanço das temperaturas extremas. Ela sequestra carbono, reduz poluentes, ameniza ruídos e cria microclimas mais agradáveis. Em ruas arborizadas, a sensação térmica pode ser vários graus menor do que em vias totalmente expostas ao sol. Não é milagre, é planejamento urbano aliado ao compromisso ambiental.
Mas não basta esperar que o Poder Público resolva tudo (mas que fique claro, ele tem a sua parcela de responsabilidade nisso!). Nosso papel como munícipes é essencial. Fiscalizar podas inadequadas (cobrando o Poder Público), sugerir espécies nativas apropriadas, participar de audiências públicas e conselhos municipais, preservar as árvores existentes e compreender que calçada rachada muitas vezes denuncia projeto mal executado, e isso não é culpa da natureza.
A cidade que desejamos não nasce apenas do concreto, nasce da consciência coletiva, do pensar juntos! Entre o asfalto que absorve calor e a copa que devolve frescor, há uma escolha política, técnica e ética. E, como dizia Seu Zé ao se levantar do banco já menos quente:
— Se cada um plantar uma sombra, ninguém mais vai precisar correr do sol, ele esfria!
E talvez seja esse o espírito, refletido na singela simplicidade do Seu Zé: precisamos cultivar árvores como quem cultiva futuro. Porque cidade boa é aquela em que o verde não é detalhe, é fundamento!
Tiago Rafael dos Santos Alves
Professor da Rede Estadual de SP / FADAP/FAP – Tupã
Historiador – nº 0000486/SP
Gestor Ambiental: CREA-SP nº 5071624912
Mestre pelo PPGG-MP – FCT/UNESP
Doutorando pelo PGAD – FCE/UNESP
E-mail: tiagorsalves@gmail.com


