“Se eles não brilham mais, talvez seja porque nós acendemos luzes demais e apagamos o que era essencial.”
Nos últimos dias, entre um texto e outro, me deparei com uma notícia um tanto preocupante, os vaga-lumes estão entrando em extinção! E como já sabemos… Os culpados somos nós! Pode até parecer bobeira, mas por um instante percebi que não os vejo mais!
Me recordo de que quando eu era criança, era fato comum nas noites de verão vermos o quintal iluminado por esses bichinhos. Eles piscavam como se as estrelas tivessem descido pra brincar com a gente.
E claro, todo moleque do quarteirão tinha um pote de vidro, para sair na sua captura. Era um negócio bem interessante… A gente furava a tampa com um prego e ficava maravilhado em ter uma “lanterna viva” na mão. Depois soltava, porque diziam que prender vaga-lume dava 7 anos de azar. Não sei se era azar, mas a gente não queria ver a luzinha se apagar lentamente no fundo do vidro.
Hoje, olho para o quintal e só encontro o breu comum e as luzes da cidade. Nenhum brilho e nenhuma luzinha dançando entre as árvores. Os vaga-lumes sumiram! Não foi de repente, foi devagarinho, quase sem a gente notar. Trocaram-se as cercas de madeira pelo cimento, o mato pelo asfalto, o silêncio pelos motores, a beleza da natureza, pela artificialidade das lâmpadas de LEDs ou fluorescentes. E eles, que gostavam da noite calma, foram embora.
Talvez, os vaga-lumes eram mais que insetos. Eram sinais! Um lembrete discreto de que a natureza também gosta de brincar de poesia. “Se eles não brilham mais, talvez seja porque nós acendemos luzes demais e apagamos o que era essencial”.
É curioso: inventamos lâmpadas potentes, postes que clareiam ruas inteiras, telas que iluminam nossos rostos madrugada adentro. Mas perdemos a delicadeza de uma luzinha que piscava só por existir.
Às vezes, me pego imaginando que, quando o último vaga-lume se foi, levou consigo um pedaço da infância do mundo. E que o verdadeiro alerta não está no silêncio das florestas, mas na ausência dessas pequenas lanternas vivas que davam sentido à escuridão.
Quem sabe, se a gente voltar a deixar a noite ser noite, eles também voltem. E então, no quintal de qualquer criança, outra vez alguém dirá baixinho:
— Olha lá, mãe… uma estrelinha caiu no chão.
Tiago Rafael dos Santos Alves
Professor / Historiador / Gestor Ambiental
Mestre pelo PPGG-MP – FCT/UNESP
Doutorando pelo PGAD – FCE/UNESP

