“O difícil era decidir quem ia levantar pra mudar de canal — mesmo só tendo um.”
“Com um canal e dois tapas na lateral, a TV funcionava como um relógio… atrasado, mas nosso.”
Quando eu era criança, lá em casa, a televisão era de botão giratório e madeira nas laterais (acho que a marca era National). Ocupava lugar de destaque na estante da sala, bem no meio dela, como se fosse alguém importante e, de certo modo, era mesmo.
Naquela época, não tínhamos muitas opções na programação. Pegava um canal só… E olhe lá… Com muito esforço, antena de arame, bom humor e, às vezes, um pequeno pedaço de palha de aço pra dar “aquela força” no sinal. Ainda assim, a imagem vinha com chuvisco, não do céu, mas da tela. Mesmo assim, a gente assistia.
O jornal das oito era a voz da verdade. Meu avô até respondia o “boa noite” do Cid Moreira e do Sérgio Chapelin. E pensem num momento “sagrado”! Ninguém dava um “pio”!
A novela era compromisso familiar. A das seis tinha uma pegada mais nostálgica, a das sete tinha um tanto de humor, já a das nove era aquela que parava o país nos seus finalmentes (até hoje não sei quem matou Odete Roitman ou quem era o tal Cadeirudo).
E o show de auditório de domingo parecia um grande evento nacional. Pessoas e mais pessoas disputavam alguns “trocados” realizando as mais diversas façanhas. E a gente, imaginando como aquele cara tinha tanto dinheiro para distribuir daquele jeito.
Não tinha zap, não tinha rede social, não tinha “vou ver depois”, não tinha maratona, não tinha “botão de salvar”. A gente via o que tinha! E gostava do que via.
Lembro das inúmeras vezes que ficava alguém de pé ao lado da TV, mexendo no aparelhinho de conversão para UHF, e outro mexendo na antena com o braço levantado como se invocasse algum “santo das comunicações”. E a gente lá do sofá gritava:
— Aí! Aí! Parou! Pegou! Fica aí…
E a pessoa da antena, congelada:
— Se eu soltar, sai! Se eu sair daqui chuvisca de novo!
E saía mesmo. Bastava se afastar, que a imagem virava um carnaval de pontinhos cinza.
Mas a TV não era só imagem. Era encontro! A sala virava “sala de estar” mesmo. Gente sentada no chão, divisão de travesseiro, pipoca na panela e disputa no melhor lugar do sofá. A televisão unia.
Hoje, cada um tem a sua tela. Cada um vê o que quer, quando quer, onde quiser. Parece liberdade, e é , mas também é silêncio. A sala ficou vazia, a pipoca ficou fria, os canais se tornaram intermináveis e sem graça, e os chuviscos agora são internos.
Tem dias que eu sinto falta daquela imagem tremida, da dualidade entre as duas emissoras, daquela espera ansiosa por um capítulo que não podia ser pausado. Daquela alegria simples de ver o mesmo programa que todo mundo comentaria na rua no dia seguinte. Sinto falta até dos chuviscos. Porque, no fundo, era a falta de nitidez que fazia a gente enxergar junto.
Tiago Rafael dos Santos Alves
Professor / Historiador / Gestor Ambiental
Mestre pelo PPGG-MP – FCT/UNESP
Doutorando pelo PGAD – FCE/UNESP


