“Mais do que máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que inteligência, precisamos de bondade e do afeto. Sem essas qualidades, a vida será violenta e tudo se perderá. Os soldados, os políticos e os líderes nos afastaram uns dos outros, nos fizeram nos fechar em muros invisíveis de medo e ódio.”
Charles Chaplin – O Grande Ditador (1940)
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Antigamente, nos idos da minha infância, vizinhança era sinônimo de partilha. Bastava abrir a janela para ouvir o apito da panela de pressão da dona Cecília, o rádio do seu Milton sintonizado na mesma estação de sempre, com aquele chiado de fundo, quase um chuvisco musical, a gaita do tio do algodão doce e a buzina do menino que passava vendendo picolé. A rua era extensão da nossa casa, um quintal coletivo onde a vida acontecia sem pedir licença.
Hoje, os muros mudaram tudo. Altos, ásperos, cheios de câmeras e cercas, eles engoliram a vizinhança. Antes, quase tudo se resolvia com uma conversa por cima da cerca baixa: “Vizinha, tem um pouquinho de açúcar?”
E não raro o pote voltava com um pedaço de bolo ou outra guloseima qualquer, como quem devolve afeto junto com o favor.
Agora, tudo se perdeu na frieza de um interfone. E às vezes nem isso: o silêncio pesa mais que qualquer saudação. Cada quintal virou fortaleza particular, cada morador guardião do próprio medo, reféns de uma (in)segurança que só faz aumentar após o noticiário da tarde.
E as crianças? Basta tentar lembrar a última vez que você as viu brincando na rua. Já não se ouvem risadas de quem corria após tocar uma campainha, nem o barulho da bola batendo contra os portões, tampouco se veem muros sendo pulados atrás de uma pipa perdida no céu. As brincadeiras de outrora pararam. Ou, quem sabe, foram feitas parar.
O mais curioso é que continuamos sendo vizinhos, mas apenas no endereço. Vivemos lado a lado, mas raramente frente a frente. O muro nos transformou em desconhecidos de quem está a dois passos da nossa porta.
E talvez essa seja a maior mudança: deixamos de ver e ouvir o outro para vivermos sós, como se o isolamento fosse progresso. Esquecemos que vizinhança não se mede em CEP, mas em presença. Ah… E só para lembrar, este texto não é apenas sobre vizinhos!
Tiago Rafael dos Santos Alves
Professor da Rede Estadual de SP / FADAP/FAP – Tupã
Historiador – nº 0000486/SP
Gestor Ambiental: CREA-SP nº 5071624912
Mestre pelo PPGG-MP – FCT/UNESP
Doutorando pelo PGAD – FCE/UNESP
E-mail: [email protected]

