“Tive meus quatro filhos no tempo em que chovia e a gente dizia ‘Deus mandou’.
Hoje, chove e o povo diz ‘Deus me livre’.”
Dona Candinha
Dias atrás entre uma conversa e outra, eis que o assunto drenagem urbana apareceu. Depois de um certo tempo o assunto findou e rotina cotidiana seguiu o seu rumo. No entanto, ao longo da tarde me recordei de quando brincávamos na chuva.
Era só escurecer o céu que a gente corria pro meio da rua. As nuvens carregadas não eram ameaça, eram convite. Lá vinham os estrondos dos trovões: “Vai chover, vai chover!”. E a gente, de pé descalço no barro, ou com aqueles chinelinhos de dedo (de uma marca conhecida) esperava a primeira gota cair.
Chover, naquela época, era coisa boa! Era sinônimo de banho de bica, poça d’água virando lagoa imaginária (ou talvez um pula-pula), chinelo escorregando pra virar barco. As mães reclamavam do barro no corredor (e na roupa), mas não impediam a alegria. Sabiam que a chuva era uma escola, só que daquelas mais livres, onde aprendíamos a medir a distância entre pingos, o tempo entre um trovão e outro, a rir de um escorregão, a perder o medo de se sujar e até mesmo a fazer música entre o pular entre uma poça e outra.
Na televisão, a previsão do tempo era aquela parte da programação que ninguém levava muito a sério, além de não entendermos muito bem. “Pode chover à tarde em pontos isolados”, diziam. A gente torcia pra ser justamente no “nosso ponto isolado” (o bairro, a rua, o quintal). E quando a enxurrada descia pela calçada, os barcos de papel (ou os chinelos) partiam em expedições oceânicas. Só naufragavam quando um pé desavisado atravessava o córrego imaginário (ou caíam no bueiro).
Hoje, quando chove, os pais tiram os filhos da janela, áreas são isoladas, placas de marcação são colocadas, casas, árvores e pontes caem, crateras se abrem e boa parte do asfalto se vai. O que antes era poesia virou alerta. A cidade cresceu onde não devia, asfaltou onde devia absorver, subiu muro onde devia plantar. O que era chão agora é concreto, e o que era escoamento virou alagamento. A chuva é a mesma, mas “nós é que mudamos de relação com ela”.
Outro dia, caiu uma chuva forte no fim da tarde. Vi uma menina correndo pela calçada, pulando sozinha de poça em poça. Sua mãe a chamava de volta com pressa: “Vai se sujar!” “Vai pegar gripe!” “Essa água tem xixi de rato!” Mas ela resistia. Por alguns instantes, parecia que ainda dava pra acreditar que chover é bonito, que molhar-se é liberdade, que brincar na chuva não precisa ser um ato de coragem.
Talvez o que esteja faltando não seja um novo sistema de drenagem, mas um novo jeito de olhar o céu (e a terra). De lembrar que, um dia, a chuva era só isso: água do céu e riso no chão.


