“O concreto pode levantar prédios, mas é a água que levanta a vida! Nenhuma cidade cresce quando o seu rio encolhe!”
“O córrego não pede permissão para morrer; ele apenas desaparece, e a cidade finge que não viu.”
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Quando eu era menino, os córregos da minha cidade eram bem mais que filetes d’água: eram lugares de vida. A gente pescava lambari com anzol improvisado, pegava peixinhos coloridos com a peneira, via girinos nas margens e, nas tardes quentes, mergulhava na correnteza como quem mergulha na própria liberdade.
Hoje, eles são apenas lembranças turvas. Com leitos assoreados, água rala e barrenta, e margens sufocadas de lixo ou erosões. Onde antes se via brilho, hoje se vê esgoto. Onde havia riso de criança, há silêncio. O que restou é um corredor de abandono.
Não foi castigo da natureza, nem obra do acaso. Fomos nós. Fomos nós que arrancamos as árvores, que jogamos o entulho, que cimentamos o chão sem pensar no destino da água da chuva. Fomos nós que tratamos os córregos como lata de lixo e depois fingimos surpresa ao vê-los morrer.
E aqui cabe a provocação: se os córregos estão mortos, quem está morrendo junto somos nós! Cada pedaço de terra assoreado é um pouco da nossa própria vida que se entope. Cada peixe que some é um pedaço do nosso equilíbrio que se perde. Não existe córrego morto em cidade viva! O que há é uma comunidade que vai adoecendo devagar, sem notar. E, quando se vê, tudo já se foi!
Ainda dá tempo? Talvez. A água tem essa teimosia bonita de sempre procurar um caminho. Vai daqui, vai dali, e sempre chega aonde quer! Mas, para isso, é preciso que a gente também mude o nosso curso.
Reflorestar, recuperar, respeitar, reaprender: eis os verbos que nos devolvem à florestania de que fala Ailton Krenak, essa cidadania que não separa o humano da natureza. O concreto pode levantar prédios e loteamentos, mas é a água que levanta a vida! Nenhuma cidade cresce quando o seu rio encolhe!
O córrego não é só água! É memória, é futuro, é espelho! E, no reflexo barrento que ele mostra hoje, talvez esteja justamente a imagem mais sincera do que somos no presente!
Tiago Rafael dos Santos Alves
Professor da Rede Estadual de SP / FADAP/FAP – Tupã
Historiador – nº 0000486/SP
Gestor Ambiental: CREA-SP nº 5071624912
Mestre pelo PPGG-MP – FCT/UNESP
Doutorando pelo PGAD – FCE/UNESP
E-mail: [email protected]

