Uma reflexão sobre podas urbanas, crise climática e a falta de planejamento ambiental
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Nos últimos meses, tornou-se impossível não notar as marcas recentes das podas drásticas espalhadas pela cidade. Galhos no chão, copas reduzidas a esqueletos e ruas que, de repente, parecem mais largas, mais claras e, curiosamente, mais quentes. À primeira vista, pode parecer apenas um serviço de rotina urbana. Mas basta permanecer alguns minutos sob o sol do meio-dia para entender que ali não se trata apenas de poda. Trata-se de clima, de planejamento e de escolhas.
Os relatórios mais recentes do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) são claros ao afirmar que o aquecimento global já não é uma previsão distante, mas um processo em curso, intensificado pelas ações humanas (mesmo que alguns ainda o neguem!). O aumento da temperatura média do planeta, a maior frequência de eventos extremos e a intensificação das ilhas de calor urbanas afetam, sobretudo, os territórios mais vulneráveis e as populações que menos contribuíram para o problema.
Quando uma árvore é drasticamente podada, não se perde apenas um elemento da paisagem. Perde-se sombra, perde-se umidade no ar, perde-se capacidade de regulação térmica. Estudos urbanos e ambientais demonstram que a arborização adequada pode reduzir significativamente a temperatura local (em até 15,0°!), melhorar o conforto térmico e diminuir a sensação de calor extremo, especialmente em regiões já marcadas por verões cada vez mais longos e secos. Cortar copas sem critérios técnicos significa, na prática, ampliar o desconforto térmico e agravar problemas que os próprios relatórios climáticos insistem em alertar.
Nesse cenário, os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, especialmente os ODS 11 (Cidades e Comunidades Sustentáveis), 13 (Ação Contra a Mudança Global do Clima) e 15 (Vida Terrestre), deixam de ser metas abstratas para se tornarem compromissos urgentes no nível local. Não há sustentabilidade possível sem políticas urbanas que integrem meio ambiente, planejamento territorial e justiça climática. E não há ação climática real quando a árvore é tratada como obstáculo e não como aliada.
O Programa Município VerdeAzul, ao qual tantas cidades paulistas aderem (e são certificadas ou não!), propõe justamente essa integração entre gestão ambiental, qualidade de vida e responsabilidade pública. No papel, fala-se em arborização urbana, adaptação climática, educação ambiental e participação social. Na prática, porém, ainda se observa uma distância preocupante entre o discurso institucional e as decisões tomadas no dia a dia. Podar drasticamente é rápido, visível e aparentemente eficiente. Planejar o verde urbano exige tempo, escuta (conselhos, população e ONGs), estudo e, sobretudo, vontade política.
Há também uma dimensão simbólica que costuma ser ignorada. Cada árvore é um indivíduo, um ser vivo que cresce junto com a cidade, que testemunha gerações, mudanças econômicas, transformações sociais. Retirar-lhe a copa de forma agressiva é, de certo modo, reafirmar uma lógica antiga, na qual o urbano só avança quando o natural é domesticado ou silenciado. Essa lógica, como o próprio IPCC alerta, é uma das raízes da crise climática global que hoje enfrentamos.
Enquanto se discute clima em conferências internacionais e se firmam compromissos globais, o aquecimento também se decide na rua, na praça, no bairro. Ele se decide quando uma cidade escolhe preservar sua arborização ou quando opta por soluções imediatistas que transferem o problema para o futuro. Porque o calor que sentimos hoje não nasce por acaso. Ele é resultado de decisões acumuladas, de árvores cortadas, de sombras perdidas e de políticas adiadas.
Talvez o desafio esteja justamente em reconhecer que a crise climática não é apenas um fenômeno distante, medido em gráficos e relatórios, mas algo que se materializa no desconforto térmico, na falta de sombra e na sensação de que o verão já não respeita mais as estações. Cuidar das árvores, nesse contexto, é mais do que uma ação ambiental. É um gesto político, climático e civilizatório.
Enquanto tratarmos a árvore como obstáculo e não como infraestrutura climática, seguiremos produzindo cidades mais quentes, mais desiguais e mais frágeis. O futuro climático da região não será decidido apenas em conferências internacionais, mas no modo como cada município escolhe cuidar, ou não, da sombra que ainda lhe resta.
Tiago Rafael dos Santos Alves
Professor da Rede Estadual de SP / FADAP/FAP – Tupã
Historiador – nº 0000486/SP
Gestor Ambiental: CREA-SP nº 5071624912
Mestre pelo PPGG-MP – FCT/UNESP
Doutorando pelo PGAD – FCE/UNESP
E-mail: tiagorsalves@gmail.com


