ARTIGO: Memórias de outrora: Muros altos, vidas encurtadas
Uma reflexão sobre o que a gente constrói para fora e o que vai perdendo por dentro
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“O mundo se cerca para se defender, mas esquece que nenhum muro é capaz de conter o que nasce da falta de diálogo.”
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Outro dia, passando por uma rua dessas que a gente conhece desde sempre, me dei conta de uma coisa meio incômoda: já não reconheço mais as casas. Não porque mudaram de dono, isso até é comum, mas porque sumiram.
No lugar delas, cresceram muros!
Altos, lisos, silenciosos. Com cerca elétrica, câmera, portão automático e, em alguns casos, até aquele aviso discreto que mais parece ameaça: “cuidado com o cão”. A casa, coitada, ficou escondida. Virou detalhe. Quem aparece agora é o muro (ou o cachorro!).
E eu fiquei ali, parado, pensando…
Nem faz tanto tempo assim, as casas tinham cercas baixas, quando tinham. Tinha portão que vivia encostado, não fechado. Tinha vizinho que entrava chamando pelo nome, criança que atravessava quintal como quem atravessa rua. A calçada era quase uma extensão da sala, e a rua… bom, a rua era um pedaço da vida!
Hoje, a rua é só passagem. E o muro virou argumento!
A gente constrói muro pra se proteger, disso ninguém duvida. O mundo anda meio atravessado, as notícias não ajudam, e o medo, esse sim, anda com a gente o tempo todo. Mas, de tanto levantar muro pra fora, será que a gente não foi levantando outros por dentro também?
Porque o muro não segura só o perigo! Ele também segura o encontro!
Enquanto eu seguia caminhando, me veio à cabeça como essa lógica não é só nossa, de bairro ou de cidade. Parece que o mundo inteiro resolveu entrar nessa mesma obra: cada um levantando seu muro, delimitando seu lado, marcando território como se isso resolvesse o que, na verdade, é bem mais profundo.
De um lado, os Estados Unidos reafirmando suas posições e interesses globais. Do outro, tensões que não cessam entre Israel e Palestina, onde o que se vê não são apenas muros físicos, mas fronteiras carregadas de história, dor e disputa. Mais adiante, Irã entra nesse tabuleiro, ampliando um cenário que parece cada vez mais cercado, não só de concreto, mas de desconfiança.
E aí a gente percebe que o muro, no fundo, é sempre a mesma tentativa: separar para proteger!
Mas será que funciona mesmo?
Porque, olhando bem, quanto mais alto o muro, menor parece o mundo. E quanto mais a gente se fecha, mais difícil fica lembrar que do outro lado também tem gente, com medo, com história, com razão (ou pelo menos com suas razões).
Voltei o olhar pra rua…
Um portão automático se abriu, rápido, preciso, sem conversa. O carro entrou, o portão fechou. Nenhum olhar, nenhum aceno. Tudo resolvido em poucos segundos. Seguro, talvez. Mas também… vazio!
Fiquei com a sensação de que, antes dos muros crescerem, a gente se conhecia mais. Sabia o nome do vizinho, a rotina da rua, o cachorro de cada casa. Hoje, a gente sabe senha, código, CEP, aplicativo… mas não sabe mais quem mora ao lado.
E isso, de algum jeito, também é um tipo de conflito… Só que silencioso!
Talvez a gente não consiga derrubar os muros do mundo, esses que envolvem países, disputas antigas e interesses que nem cabem na nossa compreensão diária. Mas os nossos… esses a gente pelo menos podia repensar.
Nem todo muro precisa ser tão alto… Nem todo medo precisa virar parede!
Porque, no fim das contas, a gente se protege tanto do outro… que corre o risco de ficar sozinho, bem seguro, bem isolado… e cada vez menos humano.
Tiago Rafael dos Santos Alves
Professor da Rede Estadual de SP / FADAP/FAP – Tupã
Historiador – nº 0000486/SP
Gestor Ambiental: CREA-SP nº 5071624912
Mestre pelo PPGG-MP – FCT/UNESP
Doutorando pelo PGAD – FCE/UNESP
E-mail: tiagorsalves@gmail.com