ARTIGO – Memórias de outrora: Pessoas da nossa rua
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“Em cidade pequena, ninguém é anônimo. Todo mundo tem apelido, história e, às vezes, até uma lenda própria.”
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“Cidade pequena é assim: você espirra na esquina e alguém lá do outro bairro já te manda benzer”.
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Toda cidade pequena tem seus personagens, e não falo dos das novelas, não. São aqueles que, mesmo sem querer, viram parte do cenário e da memória coletiva. A gente cresce vendo, ouvindo, cruzando com eles na rua, e um dia percebe que a cidade sem eles perde o jeito de cidade.
Por aqui, tinha o “bêbado oficial”, que não mentia: pedia dinheiro “pra tomar uma pinguinha mesmo”. De manhãzinha, lá estava ele, encostado no balcão do bar, esperando o dono abrir a porta, e quase sempre ajudando a varrer a calçada.
E com o “bêbado oficial” perambulavam juntos o “casal oficial”, que de algum modo estavam em todos os eventos que a terrinha proporcionava. Sempre simpáticos e ao mesmo tempo sorridentes.
E como não lembrar do “cantor da estação”, que embalava as tardes com seu “microfone improvisado”, feito de um galho qualquer, um radinho no ouvido e as músicas de alguma dupla sertaneja?
Tinha a “benzedeira oficial”, que com alguns raminhos, tirava o “quebranto” ou o “mal olhado” de alguém. E se tivesse com a “espinhela caída”, ela tinha a solução também. Dava inveja a muito médico por aí!
Mas havia também os que agradavam as crianças: “o vendedor de paçoquinha”, sempre na passagem dos trilhos ou nas esquinas centrais, o do algodão doce, com sua gaita e o da raspadinha e do sorvete, com suas buzinas inconfundíveis.
Voltando um pouco mais no tempo, havia o padeiro, que cruzava as madrugadas em sua carroça e voltava no fim da tarde com pão quentinho. E junto dele, o leiteiro e o bucheiro, figuras quase míticas de um cotidiano que já não existe.
Essas e outras (que são muitas) pessoas deixaram suas marcas na história da terrinha, no modo de falar, de se vestir, nas “cantorias”, nos produtos que vendiam. Eram simples, mas davam ritmo à vida, cor às esquinas, alma às ruas.
Mas o tempo passou… e, com ele, esses personagens foram sumindo. Hoje, a cidade ficou mais rápida, mas também mais anônima. Quase ninguém se lembra mais deles, parecem ter se dissolvido no pó das calçadas, nos fios e postes ou talvez no barulho dos carros e motos cada vez mais acelerados.
Sinto falta dessa gente! Porque eles eram o que o asfalto ainda não conseguiu calar: a voz viva do interior, o riso dos fins de tarde, a lembrança de um tempo mais simples e, talvez, mais humano.
No fundo, cidade pequena é isso: um grande quintal, sem muros ou cercas, com gente diferente (e conhecida), mas com o mesmo coração batendo devagar, no compasso do sino da igreja e no passo de quem ainda tem tempo pra cumprimentar:
— “Aôôô… será que vai chover hoje?”
Tiago Rafael dos Santos Alves
Professor da Rede Estadual de SP / FADAP/FAP – Tupã
Historiador – nº 0000486/SP
Gestor Ambiental: CREA-SP nº 5071624912
Mestre pelo PPGG-MP – FCT/UNESP
Doutorando pelo PGAD – FCE/UNESP
E-mail: tiagorsalves@gmail.com