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ARTIGO: Memórias de outrora (um tanto quanto atuais): Quando a cidade engole o campo

Por AdamantinaNET 08/09/2025 08:36
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“ As crianças vão crescer sem saber que aqui já houve sombra.”

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Árvore derrubada

 “Expandir não é crescer. É só ocupar espaço e perder memória.”

Professor imparcial

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De uns tempos pra cá, parece que as cercas de arame, os pastos abertos e até mesmo áreas que nunca imaginaríamos se alterar, andam perdendo a batalha contra as placas de “vende-se”. Onde antes o olhar corria solto, agora se levantam muros, portarias e ruas que ainda nem têm sombra (e nem árvores).

Como já disse dias atrás, quando eu era menino, aquele pedaço de terra era onde a gente soltava pipa, onde o gado pastava tranquilo, onde o rio corria sem pressa. Hoje, virou “condomínio fechado” com nome de jardim, um tanto quanto irônico, já que arrancaram todas as árvores para construir.

O progresso chega com tratores, derruba o mato, entope e polui os córregos e redesenha o chão. E a gente aplaude, como se cada lote fosse promessa de futuro ou de melhoria. Mas, no silêncio que fica depois da obra, resta só o som abafado de um campo que já não respira, uma mata que já não existe, além do êxodo de inúmeras espécies.

Não sou contra o crescimento da cidade. Mas fico pensando se não estamos confundindo o “crescer” com o “expandir”. Crescer seria cuidar do que já temos, dar vida nova às praças, plantar mais árvores nas ruas, recuperar os rios cansados ou quase mortos. Expandir é só ocupar espaço, às vezes às custas do que não volta mais. Mas, se olharmos bem de perto, isso tudo vai de encontro a lógica mercadológica das especulações imobiliárias.

As pessoas compram os lotes, levantam casas bonitas, mas esquecem que o preço maior foi pago pelo pasto que deixou de ser campo, pela mata que deixou de ser sombra, pelo rio que agora corre escondido embaixo de tubos de concreto (ou poluído).

E eu me pergunto: quando tudo virar bairro (ou jardim), quem vai contar às crianças que ali corria um riacho, que naquela sombra dormia um cavalo, que o horizonte já foi livre, ou que a seriema cantava em cima do pé do ipê amarelo?

Talvez o verdadeiro luxo não seja ter muro alto, cercas elétricas e portão eletrônico, mas poder abrir a janela e ver o verde ainda resistindo. Porque nenhuma cidade sobrevive de concreto puro. No fundo, a gente sempre precisa de um pedaço de chão vivo para chamar de lar.

 

Tiago Rafael dos Santos Alves

Professor da Rede Estadual de SP / FADAP/FAP – Tupã

Historiador – nº 0000486/SP

Gestor Ambiental: CREA-SP nº 5071624912

Mestre pelo PPGG-MP – FCT/UNESP

Doutorando pelo PGAD – FCE/UNESP

E-mail: tiagorsalves@gmail.com

 

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