ARTIGO: Memórias de outrora: As casas de madeira
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“Erguemos muros altos para nos proteger, mas acabamos prisioneiros de nós mesmos.”
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“As cercas baixas guardavam mais histórias do que todos os muros altos que levantamos depois.”
Havia um tempo em que o interior era costurado por casas de madeira. Não eram mansões nem palácios, mas carregavam em si a dignidade da simplicidade. Muros altos? Não existiam. No máximo uma cerca baixa de ripas, pintada de cal ou madeira crua, que mais convidava à conversa do que afastava. Ali, um vizinho sempre podia apoiar o braço e puxar prosa ou talvez a pauta do jornal da noite anterior.
Na frente, quase sempre havia jardim. Não era jardim de revista, mas de vida. Rosas, dálias e manacás disputavam espaço com os pés de cebolinha, manjericão, hortelã e alecrim.
As cores se misturavam: o vermelho da flor, o verde dos temperos e o azul, às vezes desbotado, da janela. Cada casa tinha sua marca. Uma era pintada de verde, outra de amarelo, outra de um branco que já não era branco, mas guardava o sol de muitos verões ou a chuva de muitas nuvens.
As paredes rangiam, sempre. No frio, estalavam como se reclamasse do sereno. No calor, o barulho era dos pés descalços das crianças que corriam de um cômodo a outro. Era um som que denunciava a vida acontecendo, como se a própria casa participasse da rotina: ela sabia quem entrava tarde, quem acordava cedo, quem andava leve e quem andava pesado de preocupações.
À noite, era comum ouvir o vento atravessando as frestas. Não era incômodo, era companhia. O chiado se misturava ao coaxar dos sapos no quintal, ao latido distante do cachorro e, de vez em quando, ao apito do trem que cortava a madrugada.
Dentro da casa, tudo parecia mais próximo, mais humano. Desde um simples retrato na parede, ao oratório em algum canto casa. Cada canto tinha uma história e cada história um pedacinho de cada pessoa.
Hoje, poucas resistem. Foram substituídas pelo tijolo, pelo concreto, pelo muro alto que esconde até o jardim, cercas elétricas e câmeras de segurança. E talvez seja essa a maior ausência: não é só a madeira que se foi, mas a vida que ela deixava passar. Porque casa de madeira não era só morada: era acolhida!
E fica a pergunta que não cala: será que o progresso, ao erguer muros e silenciar as tábuas que rangiam, não deixou a vida mais pobre de poesia?
Tiago Rafael dos Santos Alves
Professor da Rede Estadual de SP / FADAP/FAP – Tupã
Historiador – nº 0000486/SP
Gestor Ambiental: CREA-SP nº 5071624912
Mestre pelo PPGG-MP – FCT/UNESP
Doutorando pelo PGAD – FCE/UNESP
E-mail: tiagorsalves@gmail.com