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ARTIGO – Memórias de outrora: O armazém do Seu Zé

Por AdamantinaNET 18/08/2025 08:08 Atualizado em 18/08/2025 08:09
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“A vida era mais simples quando cabia numa prateleira de madeira e numa caderneta azul.”

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Quando eu era criança, morava em uma das ruas que davam para a vicinal que liga Adamantina a Lucélia. Por lá, até hoje a poeira se encontra com o vento e a memória se encontra com o presente, ficava o armazém do Seu Zé. Não era só um comércio. Era um ponto de encontro, um palco silencioso das pequenas histórias de vida de alguns moradores dos arredores.

As prateleiras altas guardavam mais do que pacotes de arroz e café: guardavam memórias. Cada saco de farinha acumulava, junto do pó branco, a lembrança de um bolo ou uma torta feita no domingo.

E os baleiros, aqueles de tampa colorida que giravam, cada um deles tinha um segredo de infância. A paçoquinha, se juntava a tubaína no fim da tarde. O suspiro ia com a gente para a escola. Sem falar naqueles guardas-chuvinhas de chocolate, que podiam ser de qualquer coisa, menos de chocolate.

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O balcão de madeira, gasto pelo tempo, era testemunha de cadernetas fiadas. Ali, o crédito não vinha de cartões ou senhas, mas da confiança e do olhar. “Anota aí, Seu Zé, no fim do mês eu acerto.” E acertava. A palavra tinha peso. A confiança tinha rosto. E como diriam em outrora: “O fio do bigode era a nota promissória.”

Enquanto o relógio marcava as horas preguiçosas da tarde, entrava gente de todo tipo. A senhora pedindo fubá, o rapaz comprando corda pra amarrar a vaca, o Seu João comprando fumo para o seu “paiero”, a criança que juntava moedas para sair com um saquinho daqueles chicletes que vinham com as figurinhas, enfim tinha de tudo e mais um pouco.

E claro, tinha também o tal do “jogo do bicho”. Chegava gente de tudo quanto é lado para jogar. E ali se desenrolavam vários números a partir do “sonho” do fulano, do sicrano e até mesmo do beltrano. Confesso que eu não entendia como aquilo funcionava, mas já vi muita gente ganhar alguns trocados nessa brincadeira.

Seu Zé sabia de tudo. Guardava as histórias junto com os parafusos, os sabões em barra e as latas de querosene. Sabia quem estava construindo casa, quem tinha perdido emprego, quem esperava carta de parente distante (ah… na frente do armazém tinha uma caixa dos Correios). Era armazém, mas também era o local da pauta de conversas dos moradores.

Hoje, quando passo diante do prédio fechado, sinto falta do cheiro de café moído na hora (que era vendido a granel), da caneta azul riscando a caderneta, da porta rangendo ao abrir. O armazém do Seu Zé não era só um lugar de compras, era um lugar de pertencimento que marcou a memória e a identidade dos moradores daquela região.

Talvez seja isso que a gente ande perdendo: “lugares que nos lembram que somos vizinhos antes de sermos clientes”. Lugares que nos lembram que a vida é feita de contas, sim, mas também de confiança.

O armazém fechou, Seu Zé já não está mais entre nós! Mas às vezes, quando o vento sopra da esquina antiga, ainda parece que ouço alguém dizendo:

— “Pode deixar, Seu Zé! Anota na caderneta que dia 10 eu venho te pagar.”

 

Tiago Rafael dos Santos Alves

Professor / Historiador / Gestor Ambiental

Mestre pelo PPGG-MP – FCT/UNESP

Doutorando pelo PGAD – FCE/UNESP

 

 

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