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ARTIGO – Memórias de outrora: Quando as araras descem à cidade

Um alerta silencioso sobre território, natureza e responsabilidade humana

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“Quando o animal precisa mudar de endereço, quase sempre é porque alguém já tomou o seu lugar.”

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Nos últimos tempos, tem sido cada vez mais comum ver as araras-canindé cruzando o céu da nossa região. Quase sempre em pares, o céu acaba cortado pelo azul intenso das asas, o amarelo vivo do peito e o grito forte chamam a atenção de quem olha para cima. Para muitos, a cena parece bonita, quase um privilégio. E é mesmo! Mas também carrega um aviso que não pode ser ignorado.

As araras não estão aqui por acaso! Elas não decidiram, de uma hora para outra, trocar o ambiente natural pelo concreto, pelos fios elétricos, pelos telhados quentes das cidades. Estão aqui porque os espaços que eram originalmente delas estão sendo reduzidos, fragmentados ou simplesmente eliminados. Onde antes havia mata, árvores altas e alimento, hoje há pasto, loteamento, cana, estrada ou solo exposto.

A presença crescente das araras-canindé na Nova Alta Paulista não é apenas um espetáculo da natureza. É um sinal de deslocamento forçado. Um reflexo direto da forma como ocupamos o território, quase sempre sem planejamento, sem escuta e sem preocupação com quem já vivia ali antes de nós.

Quando essas aves passam a frequentar áreas urbanas, procuram o que lhes foi retirado: abrigo, alimento, segurança. Encontram árvores isoladas, muitas vezes podadas de forma inadequada, praças sem diversidade vegetal e riscos constantes, como atropelamentos, choques elétricos e ataques. A cidade não foi pensada para elas. Ainda assim, elas insistem em sobreviver.

Isso deveria nos constranger! Porque, enquanto nos emocionamos com a beleza do voo, seguimos autorizando a supressão de áreas verdes, flexibilizando leis ambientais (na calada das noites), tratando a natureza como obstáculo ao “progresso” e não como parte essencial da vida. Celebramos a arara nas fotos e vídeos das nossas redes sociais, mas ignoramos as causas que a empurraram até aqui!

A arara-canindé é uma espécie símbolo. Sua presença fora do habitat natural revela o desequilíbrio climático e ambiental que já está em curso (por mais que alguns insistam em negar). Menos árvores significam menos sombra, menos conforto térmico, menos água, menos vida. Quando a arara perde espaço, todos nós perdemos junto, mesmo que ainda não percebamos.

Talvez o maior alerta esteja justamente nisso: as araras estão nos mostrando, em pleno céu da cidade, aquilo que insistimos em não enxergar no chão. O território está sendo ocupado de forma predatória (e não é de hoje). E a conta não será paga apenas pela fauna.

Cabe a nós decidir se vamos seguir apenas apontando o celular para o céu ou se teremos coragem de olhar para o chão, rever escolhas e devolver à natureza aquilo que nunca deveria ter sido tomado. Porque quando até as araras mudam de rota, é sinal de que somos nós que precisamos mudar de caminho.

 

 

Tiago Rafael dos Santos Alves

Professor da Rede Estadual de SP / FADAP/FAP – Tupã

Historiador – nº 0000486/SP

Gestor Ambiental: CREA-SP nº 5071624912

Mestre pelo PPGG-MP – FCT/UNESP

Doutorando pelo PGAD – FCE/UNESP

E-mail: tiagorsalves@gmail.com

 

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