“Quando o horizonte fica vermelho, é a natureza gritando por socorro.”
“Poeira na sala, silêncio no rio, pressa no concreto: eis o retrato do nosso tempo.”
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Antigamente, o vento que soprava no interior trazia o cheiro da chuva. A gente olhava para o horizonte e via as nuvens chegando devagar, carregadas, escuras, anunciando que a terra ia beber e que o mato voltaria a se encher de verde. O vento tinha perfume de terra molhada, misturado ao frescor da tarde que refrescava até a alma.
Hoje, quando o vento se levanta do chão, não é mais promessa de chuva: é poeira. Poeira grossa, vermelha, que entra pelas frestas das janelas, que se agarra na roupa, no cabelo, na pele, trazendo folhas e, muitas vezes, algo mais. Não é o cheiro da vida que vem, mas o gosto seco do que está faltando.
Esses ventos não nasceram por acaso. Vieram da terra nua, da mata que se foi, do rio que se estreitou, da pressa que cimentou o chão e esqueceu de plantar sombra. Vieram do costume de achar que a natureza aguenta tudo, que o progresso é eterno e que a conta nunca chega. É triste, mas a nuvem que vemos hoje não é mais de chuva: é de poeira. Poeira vermelha.
Outrora, estávamos acostumados a dizer: “É só uma ventania”, como se fosse passageira. E quando o aperto vinha, a gente rezava ou jogava um galhinho da “Missa de Ramos” para “acalmar o tempo”. Mas, e hoje? Isso não funciona mais. Temos o aviso mais claro de que algo está errado, e ainda fingimos não entender.
Talvez seja hora de lembrar do vento antigo, aquele que trazia chuva e esperança. Reflorestar, recuperar, respeitar, repensar. E por que não planejar? Nenhuma cidade cresce sufocada em poeira. Se não mudarmos o rumo, o futuro pode ser esse mesmo: um horizonte vermelho e seco, onde a vida vai sendo varrida devagar, até virar pó.
Tiago Rafael dos Santos Alves
Professor da Rede Estadual de SP / FADAP/FAP – Tupã
Historiador – nº 0000486/SP
Gestor Ambiental: CREA-SP nº 5071624912
Mestre pelo PPGG-MP – FCT/UNESP
Doutorando pelo PGAD – FCE/UNESP
E-mail: tiagorsalves@gmail.com


