Ícone do site ADAMANTINA NET

ARTIGO: Memórias de outrora: as árvores da minha cidade

“Plantei mangueira, não por fruta, mas pra ter com quem conversar no verão.”

Seu Chico da esquina

 

“Chamaram de progresso, mas esqueceram de perguntar pras árvores se elas queriam ir embora.”
Seu Miro do boteco

 

Tem gente que mede o tempo pelo canto do galo, outros pelo clarão (ou escurecer) do dia, e se aumentarmos a escala, ainda há aqueles que optam pelos fios de cabelo branco no espelho. Eu meço pelo tamanho das árvores da minha cidade.

Lembro quando o oiti da frente de casa era apenas um galhinho, cercado por algumas ripas. Hoje é abrigo de tantos passarinhos, que já virou condomínio fechado, disputado entre pardais, tico-ticos, pombas e bem-te-vis.

Na rua de cima, a mangueira do terreno baldio era a mais democrática, ninguém sabe quem a plantou, mas todo mundo colhia. Entre uma pedra e outra, todo mundo saia com uma fruta na mão e um fiapo no dente.

E na goiabeira do seu Chico, ao lado do terreno da mangueira, o ciclo da árvore era o mesmo, dá fruta, menino rouba, velho reclama, e a vida segue (com algumas reclamações, é claro!).

Tinha também a paineira da avenida principal, que floreava entre fevereiro e abril, como quem se enfeitava para o desfile da cidade. Entre maritacas e periquitos disputando as suas flores e sementes, o chão virava um tapete. Sujeira para uns, beleza para outros! E eu me perguntando quem conseguiria competir com um pé de paineira daquele tamanho?

E se quisermos aumentar ainda mais as cores, tinham os ipês, com uma florada atrás da outra, marcavam a época das secas e do vento, começava com o roxo, depois vinha o amarelo, o rosa e por fim, o branco.

Hoje, quando passo pelas mesmas ruas e avenidas, percebo que algumas dessas árvores já se foram. Umas morreram de velhice, outras de “progresso”, aquele tipo de progresso que vem com cimento, pressa e modernidade (pelo menos para a foto e as estatísticas).

No lugar, colocaram bancos de concreto (ou de madeira, das mesmas árvores arrancadas), placas e árvores que nunca vi por aqui. Mas, sinceramente, eu preferia o velho pé de manga e o som dos passarinhos.

Numa simples comparação, posso te dizer que as árvores da minha cidade são como aquelas senhorinhas, sentadas na frente de suas casas, aquelas que sabem de tudo, guardam histórias no tronco, memórias nas folhas e uma vasta sabedoria nos frutos.

E como se não bastasse, as árvores da minha cidade já foram testemunhas de muitas brincadeiras de crianças, viram várias brigas de vizinhos, foram traves de inúmeras partidas de futebol, suporte para registros dos nomes e apelidos de uns e outros e até local de campanha política de muito candidato. Mas, isso é só por aqui onde moro! Qualquer semelhança com outra cidade, é mera coincidência!

Enfim, em meio a uma e outra lembrança de outro tempo e frente ao atual cenário de alterações ambientais (aprovado nas madrugadas parlamentares), me questiono: o que será das árvores que ainda restaram na minha cidade?

 

Tiago Rafael dos Santos Alves

Professor / Historiador / Gestor Ambiental

Mestre pelo PPGG-MP – FCT/UNESP

Doutorando pelo PGAD – FCE/UNESP

 

 

Sair da versão mobile