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ARTIGO: Uma dura realidade

“Quase um mês depois de sua morte, assistimos a um singelo caso de gratidão que os animais têm por quem os respeita.”

 

Dona Rosalinda (nome fictício) morava numa casinha de madeira no inicio da Rua Joaquim Luiz Vian, perto da linha de trem. Era casada com Seu Antônio (nome fictício), com quem dividia uma aposentadoria de 200 reais, fruto de mais de 40 anos de trabalho do marido. Desse dinheiro, 140 reais iam para o aluguel, água, luz e gás. Com o restante, o casal comprava comida e pagava a farmácia. Mesmo assim, dona Rosalinda pouco reclamava da vida e fazia o milagre da multiplicação para bem cuidar dos vira-latas Pingo e Pichula e do gato Frederico.

Ela se orgulhava de dizer que, por não ter conseguido realizar o sonho de ser mãe, adotara uma criança, a quem criara com muito amor. Mas pouco falava desse filho. Quando comentava, dizia que estava com saudade e que ele morava em São Paulo. Os vizinhos estranhavam o fato de ele não visitar a mãe e viam nisso um mistério.

No inicio deste ano, as dúvidas tiveram fim. Certa manhã, dona Rosalinda foi à casa de uma amiga e, aos prantos, disse que perdera a vontade de viver, porque seu filho havia sido preso quando tentava furtar um carro em São Paulo. Para surpresa da amiga, ela confessou que fora seu filho que havia cometido o bárbaro assassinato de um cortador de cana, há dois anos, um crime que comovera toda cidade.

A partir daí, dona Rosalinda mostrava uma enorme tristeza, que provocava muita compaixão dos vizinhos. Agora, na última Sexta-Feira Santa, aconteceu uma tragédia. Dona Rosalinda, que sofria de ataques epilépticos, ao preparar o almoço, teve uma crise e caiu em cima do fogão, onde, dramaticamente, permaneceu sendo queimada até recuperar os sentidos. Foi quando, com as vestes em chamas, saiu correndo para o quintal, gritando por socorro. Seu Antônio, de imediato acudiu a esposa e pediu ajuda aos vizinhos, que, depressa, ligaram para os bombeiros. Em minutos, ela foi levada para a Santa Casa.

Por recomendação médica, dona Rosalinda foi para UTI. No sábado, quando os vizinhos foram visitá-la, perceberam uma impressionante lucidez naquela mulher que sofrera tão grave acidente. Ela mostrava muita preocupação com o marido e com seus animais. Mas, no domingo, dona Rosalinda foi transferida para Marília, onde, no anoitecer da segunda-feira, faleceu.

Hoje, quase um mês depois de sua morte, assistimos a um singelo caso da gratidão que os animais têm por quem os respeita. Todo dia, num ritual que só Deus pode explicar, os vira-latas Pingo e Pichula vão à mercearia do Brambila, na Rua Dois de Abril, onde dona Rosalinda fazia suas compras, procurar aquela que tão bem cuidara deles.

Esse fato não só serve de reflexão para nós, como também representa um alerta para as pessoas que atuam na assistência social na cidade, já que existem muitas donas rosalindas na periferia de Adamantina a espera de uma ajuda.

Obs: Publiquei este texto, pela primeira vez, em 17 de maio de 2003. A história narrada nele é verídica, e, na época dos acontecimentos, comoveu a maioria dos adamantinenses. Há muito tempo não temos mais dona Rosalinda nem os animaizinhos de estimação dela, no entanto eles continuam vivos na memória de quem os conheceu.

 

 

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