Um breve relato sobre a evolução dos contos de fadas
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“Nós vivemos dentro de um grande conto de fadas, do qual ninguém faz realmente ideia”.
Jostein Gaarder – A garota das laranjas, p. 110
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Nos últimos dias dos atuais tempos vacinais (e obscuros), ouvimos por aqui e ali uma série de falácias deste e daquele político no que se refere ao tal mundo pandêmico e seus números. No entanto, o mais curioso é que em meio a tais falas acabei me recordando de inúmeros personagens das fábulas infantis que são bem similares em suas características aos tais políticos. Pois bem, penso que daria até para criar a nossa própria fábula tupiniquim. “O nome fica por conta de vocês!”
E já que estamos falando de histórias, fábulas e afins, me recordei a algum tempo atrás li por aqui e ali sobre o “Mundo sombrio dos contos de fadas” em um site, da mesma forma que orientei um trabalho sobre isso, com base em um livro denominado “O Grande Massacre de Gatos e Outros Episódios da História Cultural Francesa” de Robert Darnton. Confesso que fiquei inicialmente, um tanto horrorizado pelo teor dos textos, no entanto achei interessante a abordagem do mesmo.
Para se ter uma ideia, os famosos “Contos de Fadas” não eram tão “agradáveis” e digamos, “infantis”, como os conhecemos hoje. Estupros, canibalismos, incestos, mortes e muita violência permeavam os contos medievais europeus.
A história original de Chapeuzinho Vermelho, contada pelos franceses no séc. XVII, é repleta de momentos que vão do canibalismo a insinuações sexuais. Da mesma forma que em João e Maria, o abandono dos dois na floresta, em algumas versões é feito pela própria mãe. Algo muito comum entre as famílias que passavam por necessidades. Mas é interessante notar que a figura das madrastas também estava presente nos contos. Quanto à bruxa, que queria devorar os dois, isso também evoca a situações reais, vivenciadas naquelas localidades. Ou seja, o canibalismo era praticado em inúmeras regiões, devido à fome.
Outros clássicos como A Bela e a Fera, Cinderela, Bela Adormecida e Branca de Neve, que trazem os famosos “príncipes”, em nada se assemelham aos contos originais. Inúmeros eram os casos de casamentos “arranjados” e/ou “forçados”, o que nos remete aos 4 contos, e claro, tantos outros mais. Além dos homicídios das primeiras esposas e filhos, estupros, agressões físicas, etc.
Sem falar nas bruxas que são mencionadas em inúmeros deles. Devemos lembrar que inúmeras mulheres foram condenadas, injustamente, pela Inquisição. Muitas delas viúvas, com idade avançada, residindo em lugares isolados, etc. Em muitos casos da vida real, bastava apenas uma discussão com alguém e um mal-estar de um parente, por exemplo, para que uma mulher fosse acusada de “bruxaria”. E da mesma forma, eram retratadas nos contos, refletindo o imaginário social de tal período sobre tais mulheres.
Com o passar do tempo surgiram novas versões, com Charles Perrault, Gabrielle-Suzanne Barbot, os Irmãos Grimm, Hans Christian Andersen etc. Desde então, o teor e o “terror” dos contos originais foi substituído gradualmente pelos padrões “mais infantis” que conhecemos hoje.
Mas o que podemos inferir a partir disso tudo? Por um lado, que a história nos remete através de tais contos, a um período em que eles refletiam “apenas a realidade vivenciada pelas pessoas nos momentos de extrema penúria”. Por outro lado, que também eram utilizados para alertá-los sobre comportamentos éticos e morais. Diante disso, vale dizer que o famoso “Felizes para Sempre”, praticamente inexistia naquela época, sendo criado muito tempo depois pelos autores já mencionados.
Tiago Rafael dos Santos Alves
Professor, Historiador e Gestor Ambiental
Membro Correspondente da ACL e AMLJF