ARTIGO: Nordeste – Diário de bordo (I): O taxista

Uma breve análise sobre alguns personagens de outro meio

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“A verdadeira viagem de descobrimento não consiste em procurar novas paisagens, e sim em ter novos olhos.”

Marcel Proust

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Na última semana, depois do cansativo ano de 2019 (e olha que nem acabou ainda!), acabei dando uma “passadinha” por Fortaleza (e cidades adjacentes) no Estado do Ceará. Já diziam em outrora que, “para conhecer o seu meio, primeiro você precisa sair dele”. Pois bem, lá fui eu! Tentar entender o que ocorre aqui!

Como sempre, em minhas viagens acabo “puxando assunto” aqui e ali com os moradores locais e para minha surpresa um dos taxistas, Sr. Antônio, era “bom de papo”. De início, ao entrar no táxi, o tema já se centrou no clima. Por sinal, bem diferente daqui, bem quente e úmido aliado a altas rajadas de vento, motivo pelo qual, a cidade possui inúmeros parques eólicos para geração de energia elétrica.

Em meio à conversa e o percurso, enquanto passávamos pelo famoso Estádio do Castelão, o assunto permeou sobre o time do Fortaleza e o seu técnico Rogério Ceni, em seus altos e baixos, idas e vindas. Destaco a riqueza de gírias e expressões regionais bem engraçadas e curiosas que acabei aprendendo.

De Rogério Ceni a conversa enveredou pela curiosa quantidade de cajueiros plantados nas calçadas e quintais das casas (afinal, estavamos no Estado  maior produtor da fruta no Brasil). Bem diferente daqui, são raras as árvores frutíferas nas residências e/ou calçadas dos paulistas nos tempos atuais.

No entanto, como toda boa prosa, acabei pegando algumas referências sobre os principais locais a se visitar e os que não visitar. Lugares para quem é “estribado[1]” e lugares para quem é “lascado[2]”. Em meio a esse papo de “lascado e estribado”, percebe-se que a história e as linhas divisórias, entre ricos e pobres, de lá são bem parecidas com as de cá, afinal estamos no Brasil!

Em fins do percurso e já próximo ao hotel do qual fiquei hospedado, posso afirmar, que nem tudo por lá se resume a praias, artesanatos, culinária e humor (nisso são bons demais!), como toda e qualquer cidade grande, problemas acabam surgindo, e em nada se diferem das terras paulistas, principalmente no tange à congestionamentos, obras públicas paradas, poluição, falta de saneamento básico, segurança, etc.

E assim enveredamos pelo lado político da coisa. Conversa vai… Conversa vem… Em um determinado momento veio o desabafo de Sr. Antônio: “Olhe ‘macho[3]’ esse ‘Governo’ tá ferrando com a gente… Antes ‘a gente’ ainda tinha alguma ‘coisinha’… Mas, agora! O que nós fazemos mal dá pra comer, aumentou tudo!”

E assim, acabei descendo e me despedindo, depois das inúmeras aulas locais de história, geografia, culinária, turismo, economia, etc., dadas por um taxista, alguém que, assim como eu ou você, acorda cedo todos os dias para ganhar o seu sustento.

Enfim, o que posso afirmar pelo que vi, ouvi e presenciei nesses dias é que, seja aqui ou ali a coisa “tá feia” para “quase” todo mundo, exceto para alguns “estribados”.

Tiago Rafael dos Santos Alves
Professor, Historiador e Gestor Ambiental
Membro Correspondente da ACL e AMLJF
[email protected]

[1] Gíria local: Rico

[2] Gíria local: Pobre

[3] Gíria local: Similar a moço ou rapaz

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