ARTIGO: A construção de um energúmeno na República do Twitter

Uma análise sobre as recentes falas do Presidente Jair Bolsonaro sobre o Educador Paulo Freire

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“Seria uma atitude ingênua esperar que as classes dominantes desenvolvessem uma forma de educação que proporcionasse às classes dominadas perceber as injustiças sociais de maneira crítica.”

Paulo Freire

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Energúmeno – e·ner·gú·me·no. Sm.

1 OBSOL Que está possuído pelo demônio; endemoniado, possesso.

2 Que se tornou confuso, desnorteado.

3 Diz-se de pessoa que, dominada por uma paixão, comete desatinos.

4 FIG Que é desprovido de inteligência; boçal, bronco, ignorante[1]. (Grifo nosso)

[1] Conferir em: < http://michaelis.uol.com.br/busca?id=Zwk9> Acesso em: 19/12/2019

 

No último dia 16, mais uma “pérola” do Presidente ganhou os holofotes. Desta vez, os alvos foram o saudoso Educador Paulo Freire e a TV Escola. Cabe destacar que, dias atrás, o nome do referido educador já havia sido retirado da “Plataforma Freire”, sob a justificativa de uma ampliação da mesma[1] (agora tudo ficou claro!). Mas, para que não restem dúvidas acerca do fora dito, reproduzo a fala do mesmo:

“Era uma programação [da TV Escola] totalmente de esquerda, ideologia de gênero, dinheiro público para ideologia de gênero. Então, tem que mudar. Reflexo, daqui a 5, 10, 15 anos vai ter reflexo. Os caras estão há 30 anos [no ministério], tem muito formado aqui em cima dessa filosofia do Paulo Freire da vida, esse energúmeno, ídolo da esquerda.”[2]

            Pois bem, aos desinformados de plantão de um lado e do outro, sejam da esquerda ou da direita (isso não importa!), chamar um dos maiores educadores do mundo de “energúmeno”, beira a uma total falta de conhecimento sobre a sua vasta carreira acadêmica e profissional, seja no Brasil ou mundo. Ah… Se tiverem alguma dúvida, façam uma breve busca sobre seu nome na internet, com certeza, surgirão páginas e mais páginas sobre ele. Mas, como na “República do Twitter” tudo pode acontecer, vamos lá”.

            Como sempre assinei, todos sabem que “sou professor de história”, e como tal, em minha formação acadêmica, todas experiências práticas e teóricas foram e são imprescindíveis para qualquer educador. E antes que, comecem os palpiteiros de plantão a dizer que sou da “esquerda” ou “coisa do tipo”, destaco que, tive contato com obras de cunho e viés marxistas, bem como obras de cunho liberais (portanto, posso afirmar que faculdades não doutrinam ninguém! Mas, “governos” sim!). Assim, destaco que na “academia”, as leituras, análises e discussões da obra Freiriana foram, são e devem continuar sendo de extrema importância na formação de todo e qualquer professor.

Negar, ideologizar, omitir, ou mesmo criticar a sua obra, penso que seja comparado a desconhecê-la na sua profundidade. Mas, como já sabemos, “aqui” tudo pode acontecer! Quanto a TV Escola, tenho uma ideia! Por que não investir o valor do “Fundo Eleitoral” nela? Garanto que tal investimento seria muito mais proveitoso. Não acham? Mas, infelizmente, como se sabe na “República do Twitter”, tudo (o que eles querem) pode acontecer!

Enfim, seja aqui ou ali, a educação em nosso país é sempre o “lado mais fraco da corda”. E nós, professores, “pagamos o pato”, vivemos o “perrengue”, mas nunca deixamos de “educar”, em especial, aqueles mais “oprimidos”. Quanto ao significado da palavra energúmeno, deixo a vocês a interpretação de quem ela melhor alude.

Tiago Rafael dos Santos Alves
Professor, Historiador e Gestor Ambiental
Membro Correspondente da ACL e AMLJF
[email protected]

 

 

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